


-->Begin. once upon a time<-- Comecei a trabalhar aos 14,5 anos de idade e, simultâneamente, a iniciar, em regime nocturno, os meus estudos pós 4ª classe. Usando as tecnologias de ponta da época, através da revista Plateia cheguei a uma correspondente parisiense. Já não me recordo por que é que nessa década recuada de 50 (com o Humberto Delgado a "obrigar-me" a demorar 3 horas, "sem pôr os pés no chão" tal era a multidão, para percorrer o trajecto de um km. desde a estação de S. Bento até à Pr. Guilherme Gomes Fernandes, onde subiria à varanda da sede de campanha para discursar e repetir o "obviamente demito-o") eu ouvia a rádio Moscovo através dum rádio "último grito", tecnologia galena*, e sabia da existência dum jornal que dizia mal de Portugal, ou melhor, de Salazar. * galena=s.m., minúsculo receptor de telefonia em que se emprega um cristal de galena; in dic. Porto Editora. Feito o pedido à parisiense para me mandar um exemplar do L'Humanité, pouco tempo depois dei conta que o jornal me chegava ao escritório ao ritmo de um por semana! Perguntada, a parisiense explicou que, como militante do PC francês, não teve qualquer dificuldade em subscrever o jornal em meu nome. Foram quase dois anos. Até que...surgiram rumores de que o bufo da zona (falecido porque nessa década já era entradote na idade), dono duma sapataria (que também já não existe) localizada a 75 metros do meu escritório, andava a seguir os meus passos, chegando a abeirar-se dele e a fazer perguntas a colegas. Entretanto, todo orgulhoso e com a "irresponsabilidade" dos verdes anos, quase diariamente, num percurso de 8 km., no carro eléctrico, exibia o jornal de braços abertos "à Cristo", com uma vontade enorme de que todos os passageiros soubessem o que o meu 1º ano de francês já conseguia fazer em prol do conhecimento sobre a política portuguesa. Mas o bufo "espantou a caça". Mal eu soube do que já previra acontecer mais cedo ou mais tarde, escrevi à parisiense, à máquina Royal Azerty, com papel químico, dizendo que acabara de saber por um colega do escritório (cá para nós que ninguém nos lê: todos queriam ler o semanário) que o jornal era proibído em Portugal, para evitar problemas Cancela o envio - o que aconteceu. O sistema deixara-me, evidentemente, à vontade até decidir o que fazer com a "presa" tão descaradamente exposta. Deixar de receber o jornal foi o momento escolhido. Podia ter mudado o nome e a morada, É agora!
Estava eu no meu posto de trabalho, 2º andar, telefone interno: O patrão diz para ires ao seu gabinete onde estão 3 agentes da pide que querem falar contigo. Não sei explicar o facto de não ter mijado pelas pernas abaixo!
Menti aos pides. Disse que tinha pedido revistas para treinar o francês, a minha correspondente mandou-me jornais. Por que deixei de receber? Ah! Foi o sr. José, que é o tesoureiro, que me disse ter a certeza de que esse jornal era proibido e me aconselhou a dizer à minha correspondente para não mandar mais.
Ai sim? Por acaso tem alguma cópia dessa carta? Tenho sim. Como era importante fiz com cópia. Só um momento, vou buscá-la à contabilidade.
Ah! Posso ler? Faça favor. Dizemos-lhe já, Senhor Castro (um catraio de 15 anos!), que fez muito bem, óptimo, de facto esse jornal é proibido, agradeça ao Sr. José, cancelar foi a melhor coisa que podia ter feito.
Segui-se uma "lavagem ao cérebro": trabalho, trabalhador, estudar, trabalhar e estudar, os nossos parabéns, há muitas coisas boas para os tempos livres, o Benfica tem um serviço gratuito de inscrição de sócios, envia tudo pelo correio, incluindo um emblema, escreva para lá que eles tratam logo de tudo, nada de coisas que possam prejudicar a sua vida e o seu futuro, o seu patrão é uma excelente pessoa, muito conhecida e prestigiada, elogiou-o muito, Senhor Castro, esteja descansado que este caso não vai ficar registado nos nossos serviços.
-->End. Once upon a time<--
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