Modelo importado da Inglaterra em 1854
Malaposta

Em 1859, a ligação entre Lisboa e Porto através das carreiras da Malaposta fazia-se em 34 horas e passava por 23 estações de muda. Apesar do bom serviço que as diligências prestavam nessa altura, a sua extinção foi irreversível com o aparecimento do comboio, embora se mantivessem em actividade durante mais algum tempo, como atestam os «manuais do viajante» da época.

22 junho 2006

Que viva o Mundial!

Alienação portuguesa

Contam os jornais que 28 mil mulheres receberam em delírio a selecção nacional de futebol no Estádio do Jamor. Dezoito mil e oitocentas desceram ao relvado e compuseram a maior bandeira humana do mundo com direito a registo no Guiness. Por entre lágrimas e gemidos suspiraram os nomes dos jogadores. Cantaram vibrantemente o Hino Nacional e comoveram-se em abundância.

Esquinas, montras, outdoors semeiam fotografias de jogadores sorrindo, jogando, sorrindo e jogando, mas sempre convidando ao consumo e incentivando a idolatria. Constatado o facto, subsiste a inquietação: o que terá levado milhares de mulheres ao Estádio Nacional aclamando em histeria jogadores de um desporto que muitas delas mal conhecem? O que motivará outros milhares de pacatos cidadãos a este empolgamento generalizado? Uma paixão patriótica emergente? A necessidade de reencontrar raízes de identidade colectiva que os ajudem a superar o flagelo das suas vidas? A simples alienação de um quotidiano complexo? A droga que obnubila o futuro miserável que se prenuncia?
Tudo isto, possivelmente. E tudo isto constitui o cenário ideal para que o estímulo ardilosamente construido pela indústria publicitária germine. Cria-se a onda lançando o engodo de que podemos ser os melhores, ganhar tudo, conquistar o reconhecimento do mundo inteiro. E, depois, aproveita-se a energia decorrente e o efeito de identificação com os protagonistas.
Todas as marcas adoptaram a imagem de um futebolista. Proliferam os hinos, os rituais de adolação da selecção que é hoje, como porventura nunca foi, um insuperável instrumento de promoção comercial. Venero a nossa bandeira mas não a considero a mais bela. As portuguesas são, como as de todas as outras nacionalidades, bonitas e feias, interessantes e antipáticas. O país não é o melhor nem o pior do mundo. É pequeno e pobre, com coisas boas, outras más e muita "manhosice". Vivemos um momento difícil e não sabemos o que fazer.
Por isso, não exijamos aos 23 desgraçados que foram convocados por Scolari que sublimem as nossas frustrações colectivas. Temo, porém, estar a pedir o impossível.

Do alto da tribuna presidencial, Scolari alçou a perna e debitou discurso empolgante. Apelou ao regresso das bandeiras às varandas e sugeriu que os nomes dos jogadores fossem pintados nas paredes de Portugal. O êxtase do mulherio recordava as celebrações da IURD nos seus tempos de apoteose. Faltaram, claro está, as oferendas. As descrições falam de momentos "intensos" e "arrepiantes", de "autêntico fervor patriótico". Foi o recorde dos recordes, a "mais bela bandeira" composta pelas "mais belas mulheres do mundo", porque naquele dia, àquela hora, elas e eles se sentiram, realmente, os "melhores e os maiores" de um planeta povoado por outros homúnculos que não nos chegam aos calcanhares.
Todo este espectáculo foi transmitido em directo pelas televisões, com reportagens ininterruptas, câmaras em hilicópteros e o aparato próprio dos grandes momentos que marcam a história e traçam o futuro dos povos.
Aclamada pelo gineceu, a selecção prometeu a glória. E elas festejaram de imediato a glória prometida.
Pelo que se vê, as bandeiras já voltaram às janelas. Temo mesmo que a sugestão de Scolari peque e que os muros, paredes e outras superfícies lisas do imobiliário pátrio sejam adornados com os nomes dos seleccionados. Espero que não se percepcione nas palavras do "sargentão" subliminar alusão à revisão dos topónimos vigentes.
É bem possível que a algum autarca mais eufórico ocorra substituir o duque de Saldanha pelo Maniche, Camões pelo Figo ou o marquês de Pombal pelo Petit. Aliás, o espaço público já se converteu em santuário da selecção.Zé de Bragança, NM, icon usual: galo de Barcelos.

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2 Comments:

At 22 junho, 2006 20:09, Anonymous Anónimo said...

As pessoas, não só deixam de receber o justo valor do trabalho que realizam, como ainda pagam para que o seu pensamento seja controlado, condicionado e, sobretudo, entorpecido. É lógico que, perante uma catrefada de problemas, se tente transferir a atenção, ou como é mais comum dizer-se, se tente esquecer as tristezas, criando outros pólos de interesse. Por isso mesmo, estes são oferecidos em catadupas pela cultura dominante que pretende manter as pessoas abstraídas das dificuldades que já pululam por aí e que têm uma forte propensão para aumentar. A verdadeira intenção que está subjacente ao dispêndio de somas tão avultadas para produzir o entretenimento é manter uma certa acalmia social – conseguida pela falta de consciência, por parte das massas, dos reais e efectivos problemas – até ser encontrada a melhor solução para evitar uma verdadeira convulsão social. Qual será a solução?!

 
At 22 junho, 2006 22:59, Anonymous Sílvia said...

É o que está a dar! Haja alegria!
http://sunshine.blogs.sapo.pt/

 

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