Modelo importado da Inglaterra em 1854
Malaposta

Em 1859, a ligação entre Lisboa e Porto através das carreiras da Malaposta fazia-se em 34 horas e passava por 23 estações de muda. Apesar do bom serviço que as diligências prestavam nessa altura, a sua extinção foi irreversível com o aparecimento do comboio, embora se mantivessem em actividade durante mais algum tempo, como atestam os «manuais do viajante» da época.

09 maio 2007

Eça de Queirós


Mulheres na obra de Eça de Queirós.


«Descia eu uma tarde, numa leda paz de ideias e sensações, o Boulevard da Madalena, quando avistei, diante da Estação dos Ónibus, rondando no asfalto, num passo lento e felino, uma criatura seca, muito morena, quase tisnada, com dois fundos olhos taciturnos e tristes, e uma mata de cabelos amarelados, toda crespa e rebelde, sob o chapéu velho de plumas negras. Parei, como colhido por um repuxão nas entranhas. A criatura passou - no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de telhado, ao luar de Janeiro. Dois poços fundos não luzem mais negro e taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. Não recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de seda, lustroso e ensebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma súplica por entre os dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais silenciosos que condenados, para um gabinete do Café Durand, safado e morno. Diante do espelho, a criatura, com a lentidão de um rito triste, tirou o chapéu e a romeira salpicada de vidrilhos. A seda puída do corpete esgarçava nos cotovelos agudos. E os seus cabelos eram imensos, de uma dureza e espessura de juba brava, em dois tons amarelos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a côdea de uma torta ao sair quente do forno.
Com um riso trémulo, agarrei os seus dedos compridos e frios:
- E o nomezinho, hem?
Ela séria, quase grave:
- Madame Colombe, 16, Rua do Hélder, quarto andar, porta à esquerda.
E eu (miserável Zé Fernandes!) também me senti muito sério, trespassado por uma emoção grave, como se nos envolvesse, naquela alcova do Café, a majestade de um Sacramento. À porta, empurrada levemente, o criado avançou a face nédia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentões, e Borgonha. E foi somente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando convulsivamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a boca, todo a tremer, num beijo profundo e terrível, em que deixei a alma, entre saliva e gosto de pimentão! Depois, numa tipóia aberta, sob um bafo mole de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos Elísios. Em frente à grade do 202 mumurei, para a deslumbrar com o meu luxo: - "Moro ali, todo o ano!..." E como ao mirar o Palacete, debruçada, ela roçara a mata fulva do pêlo crespo pela minha barba - berrei desesperadamente ao cocheiro que galopasse para a Rua do Hélder, nº 16, quarto andar, porta à esquerda!
Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com Amor, com todos os Amores que estão no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial, como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julieta, como um bode ama uma cabra. Era estúpida, era triste. Eu deliciosamente apagava a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com inefável gosto afundava a minha razão na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas semanas perdi a consciência da minha personalidade de Zé Fernandes - Fernandes de Noronha e Sande, de Guiães! Ora se me afigurava ser um pedaço de cera que se derretia, com horrenda delícia, num forno rubro e rugidor; ora me parecia ser uma faminta fogueira onde flamejava, estalava e se consumia um molho de galhos secos. Desses dias de sublime sordidez só conservo a impressão de uma alcova forrada de cretones sujos, de uma bata de lã cor de lilás com sutaches negros, de vagas garrafas de cerveja no mármore de um lavatório, e de um corpo tisnado que rangia e tinha cabelos no peito. E também me resta a sensação de incessantemente e com arroubado deleite me despojar, arremessar para um regaço, que se cavava entre um ventre sumido e uns joelhos agudos, o meu relógio, os meus berloques, os meus anéis, os meus botões de punho de safira, e as cento e noventa e sete libras que eu trouxera de Guiães numa cinta de camurça. Do sólido, decoroso, bem fornecido Zé Fernandes, só restava uma carcaça errando através de um sonho, com as gâmbias moles e a baba a escorrer.
Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da Rua do Hélder, encontrei a porta fechada - e arrancado da ombreira aquele cartão de Madame Colombe que eu lia sempre tão devotamente e que era a sua tabuleta... Tudo no meu ser tremeu como se o chão de Paris tremesse! Aquela era a porta do mundo que ante mim se fechara! Para além estavam as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ela. E eu ficara sozinho, naquele patamar do Não-ser, fora da porta que se fechara, único ser fora do mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoerência de uma pedra, até ao cubículo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas em ditosa pachorra, como se tão pavoroso abalo não tivesse desmantelado o Universo!
- Madame Colombe?
A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:
- Já não mora... Abalou esta manhã, para outra terra, com outra porca!»

Eça de Queirós - As Cidades e as Serras

(Copiado do blog Eça de Queirós, post de 16.01.2007)

Site relacionado com Eça de Queirós


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10 janeiro 2007

Eça de Queirós


O Caso Clínico de Eça de Queiroz. Contributo para a sua patobiografia

Autor: Ireneu Cruz (médico)

Informações: 1ª edição - Setembro de 2006. Páginas - 88. Preço - 8.40 euros.


"A partir de limitada informação com significado clínico, faz-se um estudo da enigmática doença do romancista Eça de Queiroz, que lhe roubou a vida aos 55 anos de idade. Tecem-se considerações de ordem clínica, por vezes imbuídas de inerente subjectividade, com base em fragmentos da sua correspondência com amigos e familiares e em observações mais objectivas de alguns dos melhores autores da Geração de 70.
A evolução da sua doença, agravada progressivamente, é avaliada ao longo da diáspora que constituiu a sua vida. Faz-se uma discussão clínica à luz dos conhecimentos actuais, que afasta o estigma do diagnóstico de tuberculose entérica ou de uma hipotética amebíase intestinal, mais recentemente aventada. Discute-se o diagnóstico diferencial de uma síndroma de má absorção que teria afectado durante mais de vinte anos o romancista. Conclui-se admitindo a hipótese de Eça de Queiroz sofrer de uma arrastada doença inflamatória intestinal, provavelmente a doença de Crohn, e de ter sido vítima das suas complicações. Aflora-se também a possibilidade de existir uma relação desta sua doença crónica com o facto de algumas das suas obras ficarem inacabadas e só terem sido postumamente publicadas."

In Ed. Caminho.

Publicado por Fradique, no post de 22.09.2006.

Comentários originais.

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11 outubro 2006

Civilização sem riso

Eça de Queiroz, in '«A Decadência do Riso», Gazeta de Notícias (1891)'

Eu penso que o riso acabou - porque a humanidade entristeceu...


Desde que homem de acção e homem de pensamento são paralelamente tristes - o mundo, que é sua obra, só pode mostrar tristeza. Tristeza na sua literatura, tristeza na sua sociedade, tristeza nas suas festas, tristeza nos fatos negros de que se veste... Tristeza dentro de si, tristeza fora de si. E quando por acaso alguém por profissão tradicional, como os palhaços, ou por contraste, ou pela saudade da antiga alegria e o desejo de a ressuscitar, procura fazer rir este mundo - só lhe consegue arrancar a tal casquinada curta, áspera, rangente, quase dolorosa, que parece resultar de cócegas feitas nos pés de um doente.
Não há que duvidar! Voltaram os tempo de Albert Durer! Outra vez o famoso moço de asas potentes, no meio dos inumeráveis instrumentos das ciências e das artes, que atulham o seu laboratório, e diante das obras colossais, que com eles construiu, sente, sob esta produção excessiva que o não tornou nem melhor nem mais feliz, um imenso desalento, e, considerando a inutilidade de tudo, de novo deixa pender sobre as mãos a testa coroada de louro.
Pobre moço, que, de muito trabalhar sobre o universo e sobre ti próprio, perdeste a simplicidade e com ela o riso, queres um humilde conselho? Abandona o teu laboratório, reentra na Natureza, não te compliques com tantas máquinas, não te subtilizes em tantas análises, vive uma boa vida de pai próvido que amanha a terra, e reconquistarás, com a saúde e com a liberdade, o dom augusto de rir.

Mas como pode escutar estes conselhos de sapiência um desgraçado que tem, nos poucos anos que ainda restam de século, de descobrir o problema da comunicação interastral, e de assentar sobre bases seguras todas as ciências psíquicas?
O infeliz está votado ao bocejar infinito. E tem por única consolação que os jornais lhe chamem e que ele se chame a si próprio - o Grande Civilizado.


E entristeceu - por causa da sua imensa civilização. O único homem sobre a Terra que ainda solta a feliz risada primitiva é o negro, na África. Quanto mais uma sociedade é culta - mais a sua face é triste. Foi a enorme civilização que nós criámos nestes derradeiros oitenta anos, a civilização material, a política, a económica, a social, a literária, a artística que matou o nosso riso, como o desejo de reinar e os trabalhos sangrentos em que se envolveu para o satisfazer mataram o sono de Lady MacBeth. Tanto complicámos a nossa existência social, que a Acção, no meio dela, pelo esforço prodigioso que reclama, se tornou uma dor grande: - e tanto complicámos a nossa vida moral, para a fazer mais consciente, que o pensamento, no meio dela, pela confusão em que se debate, se tornou uma dor maior. O homem de acção e de pensamento, hoje, está implacavelmente votado à melancolia.
Este pobre homem de acção, que todas as manhãs, ao acordar, sente dentro em si acordar também o amargo cuidado do pão a adquirir, da situação social a manter, da concorrência a repelir, da «íngreme escada a trepar», poderá porventura afrontar o Sol com singela alegria? Não. Entre ele e o Sol está o negro cuidado, que lhe estende uma sombra na face, lhe mata nela, como a sombra sempre faz às flores, a flor de todo o riso. Por outro lado o homem de pensamento que constantemente, pelo fatalismo da educação científica e crítica, busca as realidades através das aparências, e que no céu só vê uma complicada combinação de gases, e que na alma só descobre uma grosseira função de órgãos, e que sabe que porção de fosfato de cal entra em toda a lágrima, e que diante de dois olhos resplandecentes de amor pensa nos dois buracos da caveira que estão por trás, e que a todo o sacrifício heróico penetra logo o motivo egoísta, e que caminha sempre à procura da lei estável e eterna, e que a cada passo perde um sonho, e que por fim não sabe para onde vai, e nem mesmo sabe quem é - não pode ser senão um triste!

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07 junho 2006

Eça em Cuba

Mário Botas – “Eça de Queiroz em Havana” (Maio 80)
Tinta da china e aquarela.
(grazie mille pela digitalização de summer)

Foto e legendas "surripiadas com delicadeza e atrevimento" (com pedido de desculpas) no Eça de Queirós, neste post, ao Fradique, por:

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23 março 2006

Os Maias

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28 fevereiro 2006

Apenas um chinfrim...


Com a devida vénia ao Fradique, copio o post "Apenas um chinfrim..." publicado no seu blog Eça de Queirós:
«Ano Novo (preparando a carteira e o lápis):
- Este país em que vou entrar é uma monarquia ou uma república?
Ano Velho (gravemente):
- As geografias dizem que é uma monarquia... Pelo que vi pareceu-me que nem era uma monarquia, nem uma república - e que era apenas um chinfrim.
(...)
- E de que vive o País? Tem rendimentos, tem orçamento?
- Tem de menos, todos os anos, para pagar as despesas da casa, uns cinco ou seis mil contos. É a isto que eles chamam as finanças. Cada ministério...
- Um momento! Sou um simples, um ingénuo, chego... O que é um ministério?
- É uma colecção de doze homens que se encarregam (seis trotando a cavalo atrás dos outros seis) de governar o País, isto é, de ter a mão na chave da despensa. Quando se pertence a um partido...
- Pertencer a um partido, caro colega, vem a ser?...
É meter-se a gente num ónibus que leva aos empregos e a que puxa o chefe do partido, sempre com o freio nos dentes!
- Mas a questão da fazenda, dizia...
- É uma espécie de nó que todos, um por um, são chamados a desatar e que cada um aperta mais. (...)»
Eça de Queirós - Uma Campanha Alegre, LIII, Janeiro 1872.

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17 janeiro 2006

O Estadista


Com a devida vénia ao Fradique, copio o texto inserido sob a forma de imagem conforme link infra:

«ORDINARIAMENTE todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o ESTADISTA. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?»

(Eça de Queirós, 1867 In "O Distrito de Évora").

Por baixo da imagem em texto o autor escreve no seu post:

«Anda a circular na internet este pequeno excerto do opus jornalístico de Eça. Já o recebi por duas vezes no correio electrónico.

Parece-me, infelizmente, que ainda é actual.

E o Malaposta acrescenta: É actual e, por outro lado, duvido que Eça de Queirós fosse hoje tão elegante na apreciação pessoal que faz aos ministros no início do texto...

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